quinta-feira, maio 14, 2020

Memórias dos Anos 70: Ginásio

Em 1970 eu comecei a estudar no Colégio Estadual Vocacional Osvaldo Aranha, uma escola pública com ideias diferentes.



Os colégios vocacionais (existiram meia dúzia deles) foram criados em 1962 e tinham uma série de aspectos não usuais para a época: uma forma de ensino menos impositiva, enfase nos trabalhos em grupo e uma gama variada de disciplinas (com aulas como Artes Industriais, Artes Plásticas, Ensino Musical, Práticas Comerciais, Educação Doméstica e Teatro).

A boa educação é subversiva, pois  uma das mais importantes lições do bom professor é o questionamento. Aliás, este é um problema para o professor, pois logo se vê ele mesmo questionado. Não é surpresa que os colégios vocacionais foram oficialmente encerrados em 1969 (dizia-se que foi uma experiência que tinha dado certo e encerrada para ser estendida a todos os colégios). Na prática, boa parte das instalações e professores continuaram e, apesar do controle rígido de um diretor nomeado para "enquadrar" o colégio, as ideias continuavam.  Em 1970 o regime não era mais integral (algumas poucas as vezes almocei lá e no ano seguinte a cozinha foi totalmente desativada).

As matérias de caráter vocacional / profissionalizante eram interessantes, se bem que a minha falta de habilidade manual comprometeu o aproveitamento da oficina das Artes Industriais. Originalmente as aulas de Práticas Comerciais incluíam os alunos trabalharem na cantina e em um banco dentro da escola, eu cheguei a trabalhar na cantina mas isso foi encerrado ainda no primeiro ano. As aulas de Práticas Comerciais incluíam um pouco de datilografia (que colaboraram para eu digitar com as duas mãos sem precisar ficar olhando para o teclado).

Um dos professores marcantes desta época foi Antônio Carlos Zago, que lecionava matemática. Ele próprio redigia o material para as aulas, que escrevia a mão com caligrafia primorosa, copiava no "mimeógrafo" (aparentemente o nome correto é "copiador a álcool").

Em um dos seus trabalhos tive a oportunidade de usar uma brincadeira do meu pai, o hectografo. Basicamente uma mistura de gelatina (o meu pai usou uma cola de madeira que era vendida em folhas) com glicerina e um pouco de argila (para o processo de limpeza) em uma forma retangular. O original é feito em papel sulfite usando lápis, caneta ou fita de máquina de escrever especiais. Ao colocar o original sobre a gelatina, a tinta é transferida. As cópias são feita com papel jornal (por ser absorvente). A qualidade vai caindo a cada cópia, o que limita a quantidade. Para limpar a gelatina era aquecida e a tinta era absorvida pela argila. Após um certo tempo de uso, a gelatina estava contaminada demais de tinta e tinha que ser jogada fora. A minha predileção para gerar os originais era a máquina de escrever, até hoje ela está manchada de roxo.


Um comentário:

Sergio Ricardo Pina disse...

Muito legal! Eu nunca tinha ouvido falar sobre os colégios vocacionais! Como eu não tenho habilidades vocacionais, só toco buzina ou campainha, e não sei cozinhar, iria tentar me aprofundar nas atividades bancárias!